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O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

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09
Out18

Olá, Pai

Charneca em flor

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Hoje faz 30 anos que partiste. Lembro-me com nitidez de todos os pormenores daquele momento em que recebi a notícia que mudou a minha adolescência e a minha vida. Tinhas partido para sempre e contigo levaste parte do meu coração. O vazio e a dor, esses ficaram para sempre. A tua morte foi a bitola pela qual medi todas as dores destes 30 anos. Nenhuma foi mais intensa que a dor de te ter perdido. Podem ter andado muito perto mas nenhum dos meus momentos negros foi mais intenso do que aquele em que percebi que tu nunca mais ias voltar. Durante muito tempo, deitada na minha cama, julguei ouvir-te a subir a escada e a abrir a porta da nossa casa. É sempre cedo para perder o pai ou a mãe mas perder-te com 14 anos... foi duro demais.

No entanto, tu estiveste sempre comigo, pai. Em todos os momentos, alegres ou tristes, senti a tua presença, festejando comigo as minhas conquistas e consolando-me nas minhas derrotas.

Às vezes penso: E se tu não tivesses morrido? Se estivesses só a dormir e acordasses agora passados todos estes anos? Será que terias orgulho em mim? No caminho que percorri? Na mulher em que me tornei? Sabes, Pai, sei que muitas das minhas escolhas não foram as que tu sonhaste para mim mas eu tinha que encontrar o meu lugar no mundo. E encontrei. Gosto muito do que faço e sou feliz na profissão que escolhi. Sei, que muitas vezes, faço a diferença na vida das pessoas e isso é que importa.

Olha, Pai, quero que saibas que nunca te esqueci mas, apesar das muitas saudades, tenho tentado ser feliz como sei que tu gostarias que fosse. Com altos e baixos, posso dizer que tenho conseguido. Quando te perdi, caí no fundo e, durante a maior parte da minha adolescência, fui uma jovem revoltada e pensei: "porque é que isto me aconteceu?". Felizmente encontrei pessoas no meu caminho que me ajudaram a ultrapassar essa revolta. Nessa fraqueza, encontrei as forças que precisava. Por mais que a vida se complique, é muito difícil derrubar-me porque eu aprendi a reerguer-me, aconteça o que acontecer. 

Nesse longínquo dia 9 de Outubro de 1988 pensei que o meu sorriso se tinha apagado para sempre mas um dia voltei a sorrir. Hoje a dor transformou-se e já sou capaz de me sentir feliz pelos bons momentos que tive o privilégio de viver contigo. No entanto, a ausência continua a pesar toneladas.

Espero que aí no céu haja boa cobertura de wifi para tu poderes ler esta minha carta. Aguardo a resposta na volta do correio.

Tenho muitas, muitas, muitas saudades.

Beijinhos

A tua filha que nunca deixou de te amar.

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