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O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

O Voo da Garça

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30
Abr21

Voltaram as cercas sanitárias

Charneca em flor

Ontem ficámos a saber que o país passa a estar em estado de calamidade a partir de dia 1 de Maio. Esta alteração significa uma maior abertura da economia nomeadamente a nível do alargamento dos horários de funcionamento da restauração e dos centros comerciais. 

Odemira-29-Abril-mapa.jpg

Ao mesmo tempo foram anunciadas cercas sanitárias a duas freguesias do concelho de Odemira. A situação neste município está caótica devido à multiplicação de casos entre a população migrante que trabalha nas inúmeras explorações agrícolas existentes na região. Ao que parece estas pessoas vivem em condições precárias que não respeitam os direitos humanos.

Extraordinário. O governo descobriu agora aquilo que já toda a gente sabe. Quer as pessoas que lá vivem, assim como as pessoas que visitam a região e os jornalistas que já fizeram inúmeras reportagens sobre o assunto, já sabem há muito desta situação. Possivelmente só a Autoridade para as Condições no Trabalho e o Ministério que a tutela é que não tinham dado por nada.

Ainda há dias vi uma reportagem sobre as reacções xenófobas a estes migrantes que se verificam no concelho de Odemira. Embora não seja aceitável até é compreensível que as pessoas tenham estas atitudes perante o medo da pandemia. Mas, na verdade, os empresários agrícolas que potenciam estas situações é que deviam sofrer represálias por sujeitarem as pessoas a estas condições de vida e deviam ser responsabilizados, de alguma forma, pela progressão da doença naquela região. Por agora serão obrigados a testar os trabalhadores das suas explorações.

Veremos quanto tempo durarão estas cercas sanitárias.

03
Abr21

Novas formas de fazer conversa

Charneca em flor

Provavelmente, só reparei nesta alteração na forma de "fazer conversa" porque trabalho na área da saúde. Digam-me se também acontece convosco. Tenho reparado que, nos últimos meses, passámos de:

"Olá, tudo bem? E, lá em casa, tudo bem? Ainda trabalhax no sítio X? Corre tudo bem?"

Para

"Então já tomaste a vacina? Foi a da AstraZeneca? E tiveste sintomas ou passaste bem?"

Se calhar, isto só acontece lá na farmácia porque os farmacêuticos, tal como outros funcionários das farmácias, estão incluídos nos grupos prioritários a vacinar assim como outros técnicos de saúde e os professores. Como temos alguns utentes que fazem parte destes grupos profissionais, estas conversas têm-se repetido.

Ou então somos nós que perguntamos aos nossos idosos:

"Então, Sr. Y/ Sr. Z, já foi chamado/a para a vacina?"

Digam lá, também acontece o mesmo no vosso ambiente?

20
Mar21

Vacina AstraZeneca, sim ou não?

Charneca em flor

mw-860.jpeg

Imagem daqui

Eu bem queria falar de outros temas mas é incontornável. Voltemos a falar de pandemia, desta feita a propósito da balbúrdia das vacinas AstraZeneca.

No meu quotidiano na farmácia tenho reparado que perguntar: "Então já foi vacinada?" se tornou no novo "Olá, tudo bem?". Ou sou eu que pergunto aos meus velhotes se já foram chamados para a vacinação ou então são os utentes que perguntam à equipa se já foi vacinada. Na verdade, tenho 3 colegas que já tomaram a 1a dose e tomarão a próxima no fim de Maio/início de Junho.

A semana foi marcada pela suspensão temporária, e já revertida, da vacinação com a vacina do laboratório AstraZeneca. Esta tomada de posição deveu-se à ocorrência de algumas situações de formação de coágulos sanguíneos em pessoas inoculadas com esta vacina. Embora a percentagem de ocorrências fosse muito baixa manda o princípio da precaução, como disse a nossa Directora Geral da Saúde, que se suspendesse este instrumento terapêutico enquanto se procedia à avaliação do risco.

Portugal, como é habitual, só tomou esta posição depois da maioria dos outros países o terem feito. Curioso é reparar que nalguns países foram os responsáveis políticos que o anunciaram mas em Portugal foram os responsáveis técnicos, bem como o coordenador da vacinação, que o fizeram. A conferência de imprensa em que tal aconteceu foi das mais trapalhonas que já se viu. Atenção que eu não critico por criticar e até defendo o mais possível aqueles que tiveram que tomar decisões impopulares e difíceis no último ano. Penso que não se devia ter sujeitado a Dra Graça Freitas nem o Dr. Rui Ivo, do INFARMED, àquele papel. Acredito que a decisão de suspensão foi mais política do que científica.

A Agência Europeia do Medicamento acabou por decidir pela segurança da vacina já que não se conseguiu provar a relação entre os coágulos e a vacina, embora se tenha alterado a informação relativa a potenciais efeitos secundários. 

Quanto a mim, esta situação era desnecessária e só serviu para potenciar as posições negacionistas e anti-vacinas bem como a confiança do público em geral. Já há pessoas a dizerem que não querem ser vacinadas com esta opção mas não se pode escolher a vacina que queremos tomar. Se estão disponíveis é porque são, igualmente, seguras. Quem for chamado para a vacinação, e recusar por este motivo, passará para o fim da lista ou poderá, mesmo, ficar impedido de se imunizar.

No que diz respeito aos coágulos, corre-se um risco ao tomar a pílula contraceptiva e não é por isso que se deixa de a tomar.

Todas as ferramentas terapêuticas disponíveis têm riscos e benefícios que é preciso colocar na balança. Se os benefícios superam os riscos, só há uma opção. Vacinem-se assim que puderem.

02
Mar21

O ano mais estranho das nossas vidas

Charneca em flor

Embora tenha sido identificado no dia anterior, faz hoje 1 ano que foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal. Até agora já foram confirmados 804 686 casos e já faleceram, desta patologia, 16 351 pessoas. Ao longo destes 365 dias, fomos acompanhando, através da comunicação social, a evolução da doença no nosso país e no mundo.

O país foi sujeito a um primeiro confinamento cerca de 20 dias depois do primeiro caso identificado e durou perto de 1 mês e meio. Para quem se manteve sempre a trabalhar como eu, esses dias foram muitos estranhos com as ruas, efectivamente, vazias, a estrada sem carros, as filas para entrar no supermercado. Bem vistas as coisas, foi assustador porque estava-se perante o desconhecido.

No princípio da pandemia, o nosso país foi considerado um dos melhores a controlar a transmissão mas isso também se alterou. Já este ano, e durante várias semanas, fomos o país da União Europeia onde a doença esteve mais descontrolada.

Muito mudou e evoluiu ao longo destes 12 meses. No princípio, apenas algumas pessoas usavam máscara e, actualmente, o seu uso é obrigatório na maioria das situações. Às vezes dou por mim a olhar em volta, vejo todas as pessoas de máscara, penso que estamos a ser ridículos e que ficámos todos doidos. O que nos deu para andarmos de máscara? Mas, depois lembro-me que estamos a viver uma pandemia provocada por um vírus extremamente contagioso. A desinfecção das mãos entrou nas nossas rotinas. 

A Covid-19 andou mais perto de uns do que de outros. Aliás, eu senti-o na pele, felizmente, de forma leve mas com grande preocupação no início. 

No início deste ano entraram-nos imagens inacreditáveis pela casa dentro. Filas de ambulâncias durante horas à porta dos hospitais que estiveram muito perto da ruptura completa. Os funerais, de doentes covid e não covid, aconteciam muitos dias depois das pessoas falecerem prolongando o sofrimento das famílias. Foi duro, muito duro. Voltámos ao confinamento mas com aspecto completamente diferente do primeiro. As pessoas já não estão a levar o confinamento com muito rigor. Fala-se de cansaço pandémico. Seja como fôr, a situação parece quase controlada.

No entanto, acenderam-se várias luzes ao fundo do túnel. Poucos acreditavam ser possível mas, em tempo recorde, surgiram várias vacinas que já começaram a ser administradas. Infelizmente, as empresas farmacêuticas têm falhado nos prazos de entrega e, em Portugal, ainda há poucas pessoas inoculadas. A imunidade de grupo está muito distante. 

Não sabemos o que o futuro, e as novas estirpes, nos reservam. Uma coisa parece certa, a própria OMS o afirmou, a pandemia não se vai resolver, na totalidade, em 2021. 

Só nos resta aguardar e aprendermos a viver com este vírus. Eu tenho muito receio de que o novo normal passe a ser só normal.

 

E era assim que eu pensava em Janeiro de 2020

28
Jan21

Já me livrei do bicho

Charneca em flor

coronavirus-4-.jpg

O meu isolamento terminou há uns dias e já voltei a trabalhar. Continuo a acompanhar a situação pandémica que o país, e o mundo, atravessam. Agora que tanto eu como o A. estamos restabelecidos, já posso olhar para trás e enfrentar aquilo que senti quando vi o positivo no teste rápido.

O primeiro sentimento foi medo. Antes eu dizia que não tinha medo de apanhar Covid-19 porque achava que teria sintomas leves já que não tenho factores de risco (um resfriadinho como dizia o Bolsonaro). Mas quando me vi naquela situação receei que a doença evoluisse para uma situação grave quando já era patente que o SNS estava a chegar ao colapso. Também senti medo de ter infectado alguém como, de facto, aconteceu já que fui eu que infectei o meu companheiro. Aí o medo transformou-se em pavor porque ele tem historial de doença asmática.

A seguir ao medo, senti culpa. Culpa por me ter deixado infectar embora eu não tenha percebido como e culpa por não ter percebido logo aos primeiros sintomas que se tratava desta doença.

Felizmente, a nossa situação clínica evoluiu favoravelmente. Eu nunca tive muitos sintomas. O A. teve alguns dias com sintomas mais intensos mas que também conseguiu ultrapassar. Assim chegou a sensação de alívio porque não contaminei mais ninguém e por nenhum de nós ter tido necessidade de recorrer ao hospital por agravamento dos nossos sintomas. 

Ao olhar para as imagens que chegam pelas televisões não posso deixar de pensar que tivemos uma imensa sorte.

E, pensando bem, não achei o isolamento assim tão negativo. Gosto muito de passear, de viajar, de sair mas sinto-me muito bem em casa. Não consigo perceber o drama das pessoas com o confinamento.

Ainda mantenho algumas preocupações. Continuo com tosse apesar de já ter feito um teste rápido que deu negativo e de ter tido alta. Já acho que vou ficar com tosse para o resto da vida. E, se falo durante mais tempo ou ando mais depressa, parece que o ar não quer entrar. Será psicológico?!

26
Nov20

Dúvidas existenciais

Charneca em flor

Há uma série de dúvidas que me tem assaltado o espírito, ultimamente. Passo a elencar:

  • Os negacionistas da pandemia são as mesmas pessoas que acreditam que a Terra é plana e que a chegada do Homem à Lua foi uma encenação filmada algures nos Estados Unidos da América?
  • Também serão do clube anti-vacinas?
  • Surgiram agora ou sempre existiram?
  • Estariam escondidos debaixo de que pedra? Ou em que gruta?
  • Serão assim tantos que justifiquem a atenção da comunicação social, dos humoristas e a minha própria atenção?
  • Os "médicos pela verdade" tiraram o curso aonde? Na escola da vida ou na Farinha Amparo?
  • A existência dos "jornalistas pela verdade" implica que todos os outros são pela mentira? Acredito que até um adolescente que escreva para o jornal de parede da escola tem mais ética profissional do que estes pseudojornalistas.

Eu já desconfiava que havia muita gente descompensada à solta mas a pandemia, e tudo o que a rodeia, intensificou a loucura que anda por aí.

 

10
Nov20

Vacina anti-covid e ressabiamento

Charneca em flor

Ao que tudo indica, a vacina anti-covid da americana Pfizer e da alemã BioNtech apresenta uma eficácia de 90% e já está na fase final dos testes clínicos pouco faltando para iniciar o processo de pedido de autorização às autoridades  de saúde americanas (FDA). Ora são excelentes notícias embora ainda haja um longo processo antes de as vacinas chegarem à população. Esta vacina é uma das que foram negociadas pelo governo português para virem para o nosso país. Não se pode dizer que seja a luz ao fundo do túnel mas já  é uma boa promessa.

O engraçado da questão é que Donald Trump veio afirmar que a FDA e a Pfizer tinham adiado este anúncio propositadamente para que acontecesse depois das eleições presidenciais americanas. Mas esta criatura ainda não percebeu que não é o centro do Universo?!

01
Nov20

Foto da semana 45/52

Charneca em flor

Esta semana destaco a foto do meu almoço de domingo da semana passada.

IMG_20201025_131120.jpg

Cozido à Portuguesa

Sou um bom garfo. Gosto muito de comer. Nem sempre fui assim. Quando era miúda, comia muito mal. Só gostava de doces. Hoje em dia, gosto de doces e salgados o que é um problema para manter a linha.

Cozido à Portuguesa é um prato que só costumo consumir no Outono e no Inverno. Não faço em casa porque a família é muito pequena e este prato faz mais sentido cozinhar para mais pessoas. Se calhar, é uma mania minha.

Na era pré-Covid, o meu sítio preferido para comer esta iguaria portuguesa era um pequeno restaurante familiar muito perto de casa. Tendo em conta que o restaurante teve que reduzir o número de mesas, pensámos em ir buscar para comer em casa.

Quando fui encomendar fiquei com pena da cozinheira. Ela perguntou-me porque é não comíamos no restaurante porque agora a frequência era muito menor. Fiquei triste. Antes o local estava sempre a abarrotar e era difícil conseguir mesa.

É desolador pensar o que os pequenos negócios familiares estão a sofrer com esta situação. Por trás dos números que vemos nas notícias, estão pessoas. Quem puder continuar a consumir, deve fazê-lo. A economia tem que continuar a girar senão sofreremos todos.

24
Out20

A dureza dos dias que passam

Charneca em flor

As últimas semanas foram muito intensas.

A pressão das pessoas por causa da vacina da gripe é tremenda. Não consigo lidar com o facto de que não há vacinas da gripe suficientes mas que isso não depende da nossa vontade nem do trabalho da farmácia. Não há nada que possamos fazer  mas não deixa de ser frustante. Há pessoas que compreendem e outras nem tanto. Houve dias em que tive vontade de largar tudo e deixar de trabalhar com o público. Afinal, já lá vão mais de 20 anos

A covid19 atingiu pessoas próximas, familiares de uma colega, bem como outras pessoas relacionadas e que eu conheço bem. Nunca tinha "sentido" o vírus tão perto. Pela notícia do jornal Expresso, o concelho onde trabalho está acima dos 200 casos por 100 mil habitantes. É assustador sentirmos medo nos olhos dos outros bem como no nosso próprio olhar quando sentimos necessidade de nos desviarmos dos outros. 

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Estou a ficar cada vez mais assustada. Se, no princípio, pensava: "as autoridades de saúde estão a exagerar, nem conheço ninguém que esteja doente.", agora tal não se verifica. Até me custa a acreditar que cheguei a dizer que isto seria como a Gripe A, uns meses turbulentos e depois o vírus acalmava e voltava ao normal. Agora já percebi que o Sars-CoV 2 veio para ficar. Mais dia menos dia o "novo normal" será só "normal".

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