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O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

O Voo da Garça

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02
Mar21

O ano mais estranho das nossas vidas

Charneca em flor

Embora tenha sido identificado no dia anterior, faz hoje 1 ano que foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal. Até agora já foram confirmados 804 686 casos e já faleceram, desta patologia, 16 351 pessoas. Ao longo destes 365 dias, fomos acompanhando, através da comunicação social, a evolução da doença no nosso país e no mundo.

O país foi sujeito a um primeiro confinamento cerca de 20 dias depois do primeiro caso identificado e durou perto de 1 mês e meio. Para quem se manteve sempre a trabalhar como eu, esses dias foram muitos estranhos com as ruas, efectivamente, vazias, a estrada sem carros, as filas para entrar no supermercado. Bem vistas as coisas, foi assustador porque estava-se perante o desconhecido.

No princípio da pandemia, o nosso país foi considerado um dos melhores a controlar a transmissão mas isso também se alterou. Já este ano, e durante várias semanas, fomos o país da União Europeia onde a doença esteve mais descontrolada.

Muito mudou e evoluiu ao longo destes 12 meses. No princípio, apenas algumas pessoas usavam máscara e, actualmente, o seu uso é obrigatório na maioria das situações. Às vezes dou por mim a olhar em volta, vejo todas as pessoas de máscara, penso que estamos a ser ridículos e que ficámos todos doidos. O que nos deu para andarmos de máscara? Mas, depois lembro-me que estamos a viver uma pandemia provocada por um vírus extremamente contagioso. A desinfecção das mãos entrou nas nossas rotinas. 

A Covid-19 andou mais perto de uns do que de outros. Aliás, eu senti-o na pele, felizmente, de forma leve mas com grande preocupação no início. 

No início deste ano entraram-nos imagens inacreditáveis pela casa dentro. Filas de ambulâncias durante horas à porta dos hospitais que estiveram muito perto da ruptura completa. Os funerais, de doentes covid e não covid, aconteciam muitos dias depois das pessoas falecerem prolongando o sofrimento das famílias. Foi duro, muito duro. Voltámos ao confinamento mas com aspecto completamente diferente do primeiro. As pessoas já não estão a levar o confinamento com muito rigor. Fala-se de cansaço pandémico. Seja como fôr, a situação parece quase controlada.

No entanto, acenderam-se várias luzes ao fundo do túnel. Poucos acreditavam ser possível mas, em tempo recorde, surgiram várias vacinas que já começaram a ser administradas. Infelizmente, as empresas farmacêuticas têm falhado nos prazos de entrega e, em Portugal, ainda há poucas pessoas inoculadas. A imunidade de grupo está muito distante. 

Não sabemos o que o futuro, e as novas estirpes, nos reservam. Uma coisa parece certa, a própria OMS o afirmou, a pandemia não se vai resolver, na totalidade, em 2021. 

Só nos resta aguardar e aprendermos a viver com este vírus. Eu tenho muito receio de que o novo normal passe a ser só normal.

 

E era assim que eu pensava em Janeiro de 2020

20
Fev21

Cumprir ou não cumprir, essa é a questão

Charneca em flor

Para início de conversa, digo já que algumas regras relativas ao estado de emergência são confusas e pouco lógicas. Como se viu, por exemplo, ao não se considerar os livros como bem de primeira necessidade o que é muito discutível. Obviamente que os proprietários e funcionários dos pequenos, ou grandes, negócios afectados pelo imposição de encerramento estarão preocupados e revoltados. Há muito tempo que eu digo que a crise económica provocada pela pandemia vai ser extremamente grave e assusta-me pensar no que pode vir por aí.

Ainda há dias me pediram uma declaração com as despesas de saúde, em farmácia, para uma jovem mãe solicitar o apoio do banco alimentar. Só que é uma pessoa que tem emprego, é recepcionista numa clínica. Dá que pensar o que se passará com ela para precisar desse apoio. Será que não lhe pagam?! O pai da criança não a apoia?! Já a conheço há muito tempo e sempre foi trabalhadora e esforçada. Custa-me muito perceber que ela precisa deste apoio.

Mas eu pensei em escrever por outra situação. Compreendendo as dificuldades que muitas pessoas atravessam mas acho discutível que haja quem arrisque e não cumpra as regras. Por exemplo, já nos apercebemos de algumas cabeleireiras que continuam a atender clientes "às escondidas". Eu não seria capaz de ir a um cabeleireiro nesta situação. Para além do risco da patologia* e da multa, acho desleal para com aqueles que cumprem e sofrem com isso. Eu também não gostaria que as farmácias fossem encerradas e umas cumprissem e outras não. Há muita dificuldade em que as pessoas se ponham no lugar do outro. Falta empatia acima de tudo.

Agora, eu seria capaz de denunciar estas situações? Penso que não. Só se fosse uma situação de perigo iminente, por exemplo, saber que alguém tinha Covid-19 e não estava em isolamento. Caso contrário, acho que não era capaz de denunciar. Espero que nunca volte o tempo dos denunciantes. Isso cheira demais a ditadura, mesmo que seja por motivos de saúde pública.

 

*agora, durante uns meses, estarei imune.

06
Fev21

Trapalhada à portuguesa

Charneca em flor

Na semana que passou verificou-se uma descida no número de novos casos positivos embora o número de mortos se mantenha, mais ou menos, no mesmo nível elevado bem como os doentes em cuidados intensivos. Felizmente deixamos de ver as imensas filas de ambulâncias à porta dos hospitais.

A trapalhada, agora, é outra. O problema de falta de organização centra-se na vacinação. Eu sei que, nos outros países da UE, também há problemas mas com o mal dos outros...

Os laboratórios farmacêuticos comprometeram-se, na negociação com a UE, com um nível de fornecimento que não estão cumprir e, como é óbvio, o nosso país é afectado por isso. O plano de vacinação elaborado já sofreu uma série de alterações. Já ouvi relatos de profissionais de saúde convocados para a vacinação que, confirmada a presença, faltam à própria da hora, sem justificação, originando as tais sobras. A Comunicação Social descobriu várias situações de vacinação de pessoas que conseguiram fintar a prioridade para serem vacinadas em primeiro lugar. Felizmente, que o número destas ocorrências é reduzido mas dá uma péssima imagem do Plano de Vacinação. Por um lado, parece que as normas são abrangentes demais permitindo incluir, na vacinação dos lares por exemplo, pessoas com cargos directivos que não contactam com os idosos. Por outro lado, parece que há instituições que pedem mais doses do que as que necessitam originando as tais "sobras" e ninguém parece controlar isso. Quando se investiga, pune-se o denunciante em vez do prevaricador como aconteceu com o farmacêutico que trabalhava no INEM do norte que foi afastado.

A notícia de hoje é que as seringas de 1 ml, mais adequadas para a vacina, podem começar a escassear. Mas há quanto tempo é que se sabe que estas seringas seriam necessárias? É verdade que, antes, não eram muito utilizadas logo havia pouca produção mas, se calhar, já se podia ter articulado um aumento da produção com as empresas fabricantes destes artigos. É claro que se pode utilizar seringas maiores mas é uma regra básica da medição, pequenos volumes devem-se medir com o instrumento mais pequeno possível de modo a diminuir a probabilidade de erro.

Enfim, não estou a ver que se consiga obter a tal imunidade de grupo que almeja. É que acontece uma trapalhada qualquer, todas as semanas.

28
Jan21

Já me livrei do bicho

Charneca em flor

coronavirus-4-.jpg

O meu isolamento terminou há uns dias e já voltei a trabalhar. Continuo a acompanhar a situação pandémica que o país, e o mundo, atravessam. Agora que tanto eu como o A. estamos restabelecidos, já posso olhar para trás e enfrentar aquilo que senti quando vi o positivo no teste rápido.

O primeiro sentimento foi medo. Antes eu dizia que não tinha medo de apanhar Covid-19 porque achava que teria sintomas leves já que não tenho factores de risco (um resfriadinho como dizia o Bolsonaro). Mas quando me vi naquela situação receei que a doença evoluisse para uma situação grave quando já era patente que o SNS estava a chegar ao colapso. Também senti medo de ter infectado alguém como, de facto, aconteceu já que fui eu que infectei o meu companheiro. Aí o medo transformou-se em pavor porque ele tem historial de doença asmática.

A seguir ao medo, senti culpa. Culpa por me ter deixado infectar embora eu não tenha percebido como e culpa por não ter percebido logo aos primeiros sintomas que se tratava desta doença.

Felizmente, a nossa situação clínica evoluiu favoravelmente. Eu nunca tive muitos sintomas. O A. teve alguns dias com sintomas mais intensos mas que também conseguiu ultrapassar. Assim chegou a sensação de alívio porque não contaminei mais ninguém e por nenhum de nós ter tido necessidade de recorrer ao hospital por agravamento dos nossos sintomas. 

Ao olhar para as imagens que chegam pelas televisões não posso deixar de pensar que tivemos uma imensa sorte.

E, pensando bem, não achei o isolamento assim tão negativo. Gosto muito de passear, de viajar, de sair mas sinto-me muito bem em casa. Não consigo perceber o drama das pessoas com o confinamento.

Ainda mantenho algumas preocupações. Continuo com tosse apesar de já ter feito um teste rápido que deu negativo e de ter tido alta. Já acho que vou ficar com tosse para o resto da vida. E, se falo durante mais tempo ou ando mais depressa, parece que o ar não quer entrar. Será psicológico?!

14
Jan21

Bateu à minha porta

Charneca em flor

O último post que escrevi tem uma história gira. Escrevi-o durante a semana passada e enganei-me no agendamento. Publiquei quando percebi o erro. Mal sabia que, horas depois de o publicar, iria descobrir que a Covid-19 tinha entrado na minha vida.

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No fim-de-semana passado comecei a sentir a garganta irritada, alguma tosse e o nariz congestionado. Como está muito frio, pensei que era uma normal constipação devido às diferenças de temperatura entre as zonas aquecidas e as zonas mais frias. Não valorizei muito mas fui medindo a temperatura. Não detectei febre. Mas a verdade é que fiz o teste e a infecção confirmou-se.

Não consigo perceber como fui contagiada. Não fui a nenhum festa nem no Natal nem na Passagem de Ano. Fora do meu trabalho, só tenho contacto com o meu companheiro, que também já apresenta alguns sintomas, e estive com a minha mãe nas datas festivas. A única coisa que fiz, fora do habitual, foi dar um passeio, sempre de máscara, e fui almoçar fora num restaurante que, aparentemente, cumpria todas as normas. No meu dia-a-dia sou muito criteriosa com a desinfecção das mãos e utilizo, sempre, máscara FFP2.

Nunca vou descobrir como é que isto aconteceu. No meu trabalho, felizmente, ninguém apresenta sintomas. Eu estava convencida que estava a fazer tudo certo mas alguma coisa correu mal. Os meus sintomas têm-se mantido ligeiros, felizmente.

Partilho esta situação convosco porque quero alertar para que prestem atenção aos sintomas mais insignificantes. É muito difícil lidar com a culpa de, inadvertidamente, ter colocado as pessoas de quem gosto em risco. Por mais cuidadoso que se seja, pode acontecer a qualquer pessoa. Tenham cuidado e muita atenção ao vosso corpo.

11
Jan21

Presente de Natal envenenado

Charneca em flor

A passada semana trouxe um cenário trágico, embora expectável, em relação ao número de casos positivos de Covid-19 bem como ao número de mortos. Os hospitais estão no limite quer em relação aos doentes Covid quer em relação a outras patologias respiratórias. Ouvimos na Comunicação Social, e nas conversas do dia-a-dia, a atribuição de responsabilidades ao Governo neste agravamento da pandemia em Portugal. Há quem alegue que não se devia ter aliviado as medidas no Natal ou que deviam, mesmo, ter sido agravadas estabelecendo, por exemplo, um número máximo de pessoas, ou de agregados familiares, nas celebrações particulares desta quadra.

É bem verdade que os países que seguiram esse caminho apresentam uma curva descendente no número de casos enquanto por aqui se enfrenta uma terceira onda gigantesca.

Quanto a mim, acho que cada indivíduo tem a sua quota-parte de responsabilidade. Porque é que estamos sempre à espera de um Estado paternalista que nos diga o que podemos, ou não, fazer? Não temos cabeça para pensar? O bom senso está em vias de extinção? Já que não era proibido, vamos juntar a família toda na ceia de Natal como é habitual. Deve ter havido muitas pessoas a pensar isso, com certeza. Ou então a fazer testes que, ao darem negativo, podem ter dado uma falsa sensação de segurança. Há um período, após o contacto com alguém doente, durante o qual ainda não se tem carga viral detectável.

Tudo indica que caminhamos a passos largos para um confinamento geral. Aguardemos pelos próximos desenvolvimentos.

 

17
Dez20

Blogmas 2020 - Pandemia

Charneca em flor

A pandemia é um tema incontornável neste Natal de 2020. Esta época é propícia aos convívios familiares que podem ser potenciais focos de infecção. Pela Europa fora, cada país criou as regras que considerou mais adequadas. Algumas até soam um pouco ridículas.

A maioria dos países impuseram um número limite de pessoas à mesa de Natal como, por exemplo,  em Espanha ou na Alemanha que permitem 10 pessoas à mesa. Também são controladas as deslocações entre regiões nalgins países. Há países onde a restauração está completamente encerrada e  noutros estes estabelecimentos trabalham com muitas restrições.

Na Bélgica, cada família só pode receber 1 pessoa. Se houver jardim, já podem receber 2 pessoas mas só uma é que pode ir à  casa de banho.

Também há quem aconselhe isolamento antes e depois do Natal.

Se quiserem mais informação encontra-se neste artigo

Por cá têm surgido uma série de "conselhos", ou seja, confia-se no bom senso das pessoas. Assim permite-se a circulação entre concelhos, o recolher obrigatório é mais tardio e não foi imposto um limite ao número de pessoas à mes na ceia de Natal. No meu entendimento, as pessoas devem ser responsabilizadas pelo evoluir da situação pandémica e não podem ser tratadas como seres desprovidos de inteligência. No entanto, pelas conversas que tenho ouvido, começo a duvidar do discernimento dos portugueses. Será que as pessoas não são capazes de raciocinar e perceber que, este ano, não é seguro juntarem a família toda?! 

Vamos usufruir do voto de confiança que recebemos enquanto sociedade mas cada um fazer a sua parte neste combate?!

26
Nov20

Dúvidas existenciais

Charneca em flor

Há uma série de dúvidas que me tem assaltado o espírito, ultimamente. Passo a elencar:

  • Os negacionistas da pandemia são as mesmas pessoas que acreditam que a Terra é plana e que a chegada do Homem à Lua foi uma encenação filmada algures nos Estados Unidos da América?
  • Também serão do clube anti-vacinas?
  • Surgiram agora ou sempre existiram?
  • Estariam escondidos debaixo de que pedra? Ou em que gruta?
  • Serão assim tantos que justifiquem a atenção da comunicação social, dos humoristas e a minha própria atenção?
  • Os "médicos pela verdade" tiraram o curso aonde? Na escola da vida ou na Farinha Amparo?
  • A existência dos "jornalistas pela verdade" implica que todos os outros são pela mentira? Acredito que até um adolescente que escreva para o jornal de parede da escola tem mais ética profissional do que estes pseudojornalistas.

Eu já desconfiava que havia muita gente descompensada à solta mas a pandemia, e tudo o que a rodeia, intensificou a loucura que anda por aí.

 

10
Nov20

Vacina anti-covid e ressabiamento

Charneca em flor

Ao que tudo indica, a vacina anti-covid da americana Pfizer e da alemã BioNtech apresenta uma eficácia de 90% e já está na fase final dos testes clínicos pouco faltando para iniciar o processo de pedido de autorização às autoridades  de saúde americanas (FDA). Ora são excelentes notícias embora ainda haja um longo processo antes de as vacinas chegarem à população. Esta vacina é uma das que foram negociadas pelo governo português para virem para o nosso país. Não se pode dizer que seja a luz ao fundo do túnel mas já  é uma boa promessa.

O engraçado da questão é que Donald Trump veio afirmar que a FDA e a Pfizer tinham adiado este anúncio propositadamente para que acontecesse depois das eleições presidenciais americanas. Mas esta criatura ainda não percebeu que não é o centro do Universo?!

01
Nov20

Foto da semana 45/52

Charneca em flor

Esta semana destaco a foto do meu almoço de domingo da semana passada.

IMG_20201025_131120.jpg

Cozido à Portuguesa

Sou um bom garfo. Gosto muito de comer. Nem sempre fui assim. Quando era miúda, comia muito mal. Só gostava de doces. Hoje em dia, gosto de doces e salgados o que é um problema para manter a linha.

Cozido à Portuguesa é um prato que só costumo consumir no Outono e no Inverno. Não faço em casa porque a família é muito pequena e este prato faz mais sentido cozinhar para mais pessoas. Se calhar, é uma mania minha.

Na era pré-Covid, o meu sítio preferido para comer esta iguaria portuguesa era um pequeno restaurante familiar muito perto de casa. Tendo em conta que o restaurante teve que reduzir o número de mesas, pensámos em ir buscar para comer em casa.

Quando fui encomendar fiquei com pena da cozinheira. Ela perguntou-me porque é não comíamos no restaurante porque agora a frequência era muito menor. Fiquei triste. Antes o local estava sempre a abarrotar e era difícil conseguir mesa.

É desolador pensar o que os pequenos negócios familiares estão a sofrer com esta situação. Por trás dos números que vemos nas notícias, estão pessoas. Quem puder continuar a consumir, deve fazê-lo. A economia tem que continuar a girar senão sofreremos todos.

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