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O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

O Voo da Garça

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14
Jul21

Coisas várias

Charneca em flor

Há várias semanas que quase abandonei este espaço. O último mês e meio foi algo atribulado. Até vou aqui elencar o que me aconteceu:

- Várias idas ao dentista.

- Bateram-me no carro quando estava parada no semáforo e a companhia de seguros levou muito tempo a autorizar a reparação dos danos.

- Aborreci-me com o fornecedor de telecomunicações de anos e resolvi mudar de empresa. Não tem sido fácil já que não foi possível avançar com a minha primeira opção.

- O trabalho tem sido esgotante mas isso já não é grande novidade. Depois da loucura das máscaras e do álcool no início da pandemia, da corrida à vacina da gripe, agora estamos a ser bombardeadas com solicitações para Testes Rápidos de Antigénio Sars-CoV-2.

Mas, também, tenho boas notícias. No início da semana completaram-se 6 meses desde que tive Covid-19. Assim já posso ser vacinada . Na próxima 2a feira, lá estarei no centro de vacinação do meu concelho para receber o meu 5G .

Depois vou contar como foi a minha experiência de reencontro com o bicho.

15
Mai21

Arrumações

Charneca em flor

Esta semana andei mais afastada aqui da blogosfera porque estive ocupada com trabalhos domésticos. Na semana que passou estive de férias para executar 2 projectos mas as circunstâncias só me permitiram executar um deles. 

Não sou grande artista mas gosto muito de pintar paredes. Acho mesmo um trabalho divertido. A cada maluco, a sua mania.

Primeiro planeava pintar um corredor e uma casa de banho da casa da aldeia que costumam ter um grande problema de humidade e, este ano, também sofreram um ataque fúngico sem precedentes. Infelizmente, a chuva que caiu no início da semana atrapalhou-me os planos uma vez que houve uma infiltração de água que terá que ser resolvida primeiro.

Assim, passei ao segundo projecto, arrumar e pintar o meu escritório/biblioteca. Acabei por ocupar toda a semana com esta actividade. Dei uma volta muito grande a todos os papéis, livros, pastas e todos os objectos que fui acumulando ao longo dos anos. Perdi a conta de quantas vezes fui ao ecoponto.

Encontrei várias coisas que me surpreenderam como, por exemplo, algumas fotografias de cuja existência já nem me lembrava. Nalgumas nem me reconheci. Quer dizer, fisicamente percebo que sou eu mas já não me identifico com a pessoa que eu era na altura que as imagens foram captadas. A minha maneira de ser, aquilo que penso e sinto evoluíram tanto que, às vezes, até me parece que aquela vida pertenceu a outra pessoa que não eu.

08
Mai21

Recordações da adolescência

Charneca em flor

Aqui há dias fui surpreendida por uma mensagem de whatsapp de uma das minhas amigas mais antigas. Tratava-se de uma foto cuja existência eu ignorava. A imagem tinha sido captada na festa do 17° aniversário dessa minha amiga, ou seja, tem quase 30 anos (!!!!).

Fiquei perplexa por vários motivos. Primeiro porque me custa a acreditar que já passaram 30 anos e depois porque dei por mim a achar-me gira naquela fotografia. Nas imagens mentais e difusas que guardo da minha adolescência, vejo-me sempre muito feia. Eram épicas, as cenas de choro em frente ao espelho em que eu me lamentava da minha fealdade. Na verdade, a natureza não me presenteou com traços de grande beleza física mas a maturidade tem a vantagem de nos ensinar a lidar com as nossas limitações. Hoje em dia, continuo a não ser uma beldade, estou mais gorda, tenho celulite e algumas rugas, mas já não choro em frente ao espelho. Na maioria dos dias, gosto da imagem que o espelho reflecte. E também me tornei uma pessoa mais confiante e segura embora a insegurança ainda apareça esporadicamente.

Passados 30 anos, olho para a minha imagem de adolescente com um olhar mais complacente e brando. Afinal, nem era assim tão feia e, na verdade, a nossa maneira de ser, o nosso eu interior, reflectem-se na nossa imagem exterior e transformam-nos numa pessoa interessante o que é muito mais importante do que ser uma pessoa muito bonita mas vazia. O tempo que eu perdi a ter pena de mim própria.

27
Mar21

Em modo diva

Charneca em flor

Aqui há 2 semanas, instalaram sensores de  movimento, na farmácia onde trabalho, para que a iluminação se acenda, e apague, quando estamos a passar. Parece uma coisa banal mas eu sinto que estou a desfilar numa passerele e as luzes vão-se acendendo à minha passagem. 

Ora, na verdade, estes sensores não se destinam a alimentar a minha vaidade mas sim a poupar energia já que previnem que as luzes fiquem acesas sem necessidade.

O problema é que, agora, penso que todas as luzes se deveriam acender, apenas e só, pela minha presença. Já dei por mim, mais de uma vez, surprendida porque a iluminação não se acende quando eu desfilo caminho como uma diva. Fico até ofendida pela falta de consideração das lâmpadas. 

Vejam lá que, para subir a escada do meu prédio, tenho que carregar no interruptor. Falta de respeito  .

 

06
Mar21

100 anos de PCP

Charneca em flor

Hoje assinala-se o centenário do mais antigo partido político português, o Partido Comunista Português. Podemos concordar ou não com os princípios que norteiam este partido mas não podemos escamotear a resiliência e a resistência dos seus militantes na luta contra a ditadura no nosso país. Muitas vezes arriscando, e perdendo, a vida, sofrendo com a prisão e a tortura, sacrificando a sua vida privada e as suas naturais aspirações pessoais. Há inúmeras histórias de comunistas que viveram durante anos na clandestinidade, usando um nome diferente do seu e vivendo uma vida criada para esse efeito.

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Imagem da Notícias Magazine

A história já nos mostrou que nem sempre os ideais teóricos resultam numa melhoria na vida das pessoas quando aplicados na prática. Todas as situações que nos coartam a liberdade são condenáveis. Sejam perpetradas por ditaduras de esquerda ou de direita. Aliás é conhecido que os regimes comunistas também cometeram crimes. Esses factos não deviam ser escondidos debaixo do tapete. Não quero branquear as acções negativas desses regimes mas reconheço o papel de PCP em Portugal. Muitos dos direitos de que usufruímos hoje resultaram da luta dos militantes do PCP assim como dos sindicatos ligados ao partido.

Não sou militante deste partido nem de qualquer outro. A minha postura política é mais ao centro uma vez que concordo com princípios quer de um quadrante quer de outro. Já votei em partidos diferentes consoante as pessoas em questão ou a eleição em causa.

No entanto, o PCP faz parte da minha história familiar e de algumas das minhas memórias de infância. O meu pai era militante do PCP e membro da assembleia de freguesia quando faleceu. Fazia parte da direcção de uma cooperativa de consumo ligada ao partido e era muito activo nas tarefas do partido. Durante a minha infância acompanhei-o muitas vezes ao centro de trabalho do PCP na nossa terra. Embora me lembre melhor do bar que havia nas traseiras e das guloseimas que os amigos do meu pai me compravam*. E do enorme retrato de Catarina Eufémia que estava em frente à porta de entrada. As cerimónias fúnebres do meu avô paterno não tiveram padre mas o caixão tinha a bandeira do PCP. 

Às vezes questiono-me se o meu caminho teria sido diferente caso o meu pai não tivesse falecido tão cedo. Se calhar, em vez de ter enveredado pela prática religiosa (pertenci a grupos de jovens católicos, dei catequese, fui leitora na eucaristia) talvez me tivesse filiado no PCP. Afinal, há quem afirme que Jesus Cristo foi o primeiro comunista porque defendiam os mais pobres e humildes da sociedade do seu tempo. 

*chocolates da regina e uns pacotinhos pequeninos que havia nos anos 80 com pevides e amendoins. Ainda hoje sou perdida por estes snacks. (Editado porque me esqueci do * na primeira versão).

 

28
Jan21

Já me livrei do bicho

Charneca em flor

coronavirus-4-.jpg

O meu isolamento terminou há uns dias e já voltei a trabalhar. Continuo a acompanhar a situação pandémica que o país, e o mundo, atravessam. Agora que tanto eu como o A. estamos restabelecidos, já posso olhar para trás e enfrentar aquilo que senti quando vi o positivo no teste rápido.

O primeiro sentimento foi medo. Antes eu dizia que não tinha medo de apanhar Covid-19 porque achava que teria sintomas leves já que não tenho factores de risco (um resfriadinho como dizia o Bolsonaro). Mas quando me vi naquela situação receei que a doença evoluisse para uma situação grave quando já era patente que o SNS estava a chegar ao colapso. Também senti medo de ter infectado alguém como, de facto, aconteceu já que fui eu que infectei o meu companheiro. Aí o medo transformou-se em pavor porque ele tem historial de doença asmática.

A seguir ao medo, senti culpa. Culpa por me ter deixado infectar embora eu não tenha percebido como e culpa por não ter percebido logo aos primeiros sintomas que se tratava desta doença.

Felizmente, a nossa situação clínica evoluiu favoravelmente. Eu nunca tive muitos sintomas. O A. teve alguns dias com sintomas mais intensos mas que também conseguiu ultrapassar. Assim chegou a sensação de alívio porque não contaminei mais ninguém e por nenhum de nós ter tido necessidade de recorrer ao hospital por agravamento dos nossos sintomas. 

Ao olhar para as imagens que chegam pelas televisões não posso deixar de pensar que tivemos uma imensa sorte.

E, pensando bem, não achei o isolamento assim tão negativo. Gosto muito de passear, de viajar, de sair mas sinto-me muito bem em casa. Não consigo perceber o drama das pessoas com o confinamento.

Ainda mantenho algumas preocupações. Continuo com tosse apesar de já ter feito um teste rápido que deu negativo e de ter tido alta. Já acho que vou ficar com tosse para o resto da vida. E, se falo durante mais tempo ou ando mais depressa, parece que o ar não quer entrar. Será psicológico?!

14
Jan21

Bateu à minha porta

Charneca em flor

O último post que escrevi tem uma história gira. Escrevi-o durante a semana passada e enganei-me no agendamento. Publiquei quando percebi o erro. Mal sabia que, horas depois de o publicar, iria descobrir que a Covid-19 tinha entrado na minha vida.

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No fim-de-semana passado comecei a sentir a garganta irritada, alguma tosse e o nariz congestionado. Como está muito frio, pensei que era uma normal constipação devido às diferenças de temperatura entre as zonas aquecidas e as zonas mais frias. Não valorizei muito mas fui medindo a temperatura. Não detectei febre. Mas a verdade é que fiz o teste e a infecção confirmou-se.

Não consigo perceber como fui contagiada. Não fui a nenhum festa nem no Natal nem na Passagem de Ano. Fora do meu trabalho, só tenho contacto com o meu companheiro, que também já apresenta alguns sintomas, e estive com a minha mãe nas datas festivas. A única coisa que fiz, fora do habitual, foi dar um passeio, sempre de máscara, e fui almoçar fora num restaurante que, aparentemente, cumpria todas as normas. No meu dia-a-dia sou muito criteriosa com a desinfecção das mãos e utilizo, sempre, máscara FFP2.

Nunca vou descobrir como é que isto aconteceu. No meu trabalho, felizmente, ninguém apresenta sintomas. Eu estava convencida que estava a fazer tudo certo mas alguma coisa correu mal. Os meus sintomas têm-se mantido ligeiros, felizmente.

Partilho esta situação convosco porque quero alertar para que prestem atenção aos sintomas mais insignificantes. É muito difícil lidar com a culpa de, inadvertidamente, ter colocado as pessoas de quem gosto em risco. Por mais cuidadoso que se seja, pode acontecer a qualquer pessoa. Tenham cuidado e muita atenção ao vosso corpo.

25
Nov20

Há coisas que nunca mudam

Charneca em flor

Os anos passam, vou ficando mais velha, entra em cena uma pandemia que modificou a minha vida diária tal como a de toda a gente mas há coisas que nunca mudam. E isso até me dá um certo conforto, um quentinho na alma. Porque pode ser um certo contraponto, o normal de sempre versus o novo normal. E uma das coisas que nunca muda é a minha natureza saudavelmente despistada. Sim, já entrei num supermercado sem máscara mas isso acontece a toda a gente. Mas o disparate que eu cometi aqui há dias, só distraídas mais requintadas, como eu, são capazes de fazer.

Eu precisava de um amaciador para o cabelo. Estava na farmácia onde trabalho ao fim do dia e aproveitei para ir olhar para as prateleiras dos produtos capilares para escolher o produto com a melhor relação qualidade/preço. E escolhi rapidamente o produto que está na imagem

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Como podem ver, diz champô no rótulo bem como " shampooing" em toda a embalagem o que quer dizer que, provavelmente, é um champô . Acontece que as embalagens de champô desta marca costumam ter outro formato e os amaciadores é que vêm em bisnagas.  Eu peguei no produto, cheia de confiança, e nem olhei para ele.

E quando é que eu percebi o erro?!

Ora estava eu a lavar o cabelo com o meu champô, passo por água e pego no suposto amaciador e ponho no cabelo. Só que, estranhamente, começa a fazer espuma . É nesse momento que eu olho bem para a bisnaga e percebo a burrada que tinha feito. 

Agora tenho 2 champôs e nenhum amaciador mas continuo a doida de sempre .

 

24
Out20

A dureza dos dias que passam

Charneca em flor

As últimas semanas foram muito intensas.

A pressão das pessoas por causa da vacina da gripe é tremenda. Não consigo lidar com o facto de que não há vacinas da gripe suficientes mas que isso não depende da nossa vontade nem do trabalho da farmácia. Não há nada que possamos fazer  mas não deixa de ser frustante. Há pessoas que compreendem e outras nem tanto. Houve dias em que tive vontade de largar tudo e deixar de trabalhar com o público. Afinal, já lá vão mais de 20 anos

A covid19 atingiu pessoas próximas, familiares de uma colega, bem como outras pessoas relacionadas e que eu conheço bem. Nunca tinha "sentido" o vírus tão perto. Pela notícia do jornal Expresso, o concelho onde trabalho está acima dos 200 casos por 100 mil habitantes. É assustador sentirmos medo nos olhos dos outros bem como no nosso próprio olhar quando sentimos necessidade de nos desviarmos dos outros. 

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Estou a ficar cada vez mais assustada. Se, no princípio, pensava: "as autoridades de saúde estão a exagerar, nem conheço ninguém que esteja doente.", agora tal não se verifica. Até me custa a acreditar que cheguei a dizer que isto seria como a Gripe A, uns meses turbulentos e depois o vírus acalmava e voltava ao normal. Agora já percebi que o Sars-CoV 2 veio para ficar. Mais dia menos dia o "novo normal" será só "normal".

05
Set20

Resumo resumido da minha semana

Charneca em flor

Esta primeira semana de trabalho depois das férias foi muito esgotante em termos psicológicos.

Logo no primeiro dia fui surpreendida por alterações do funcionamento que vão implicar uma mudança nos horários. Não fiquei assim muito satisfeita, até me senti magoada porque achei que fui injustiçada. Mas como não sou de guardar rancores, acabei por me apaziguar.

Por outro lado, estou preocupada pela diminuição do fluxo de utentes na farmácia. De dia para dia vai-se notando a contenção das pessoas que se vão abstendo de adquirir aquilo que não é essencial mas também se nota que se avizinha uma crise muito superior ao que vivemos no tempo da troika. Embora eu não seja proprietária da farmácia, não sei até que ponto esta situação me possa atingir pessoalmente. 

Mas a machadada final foi ter percebido, mais uma vez, como as pessoas nos podem desiludir. Alguém com quem tivemos uma parceria durante muitos anos, que era tratada como mais uma da equipa e até considerada como uma amiga, cometeu uma deslealdade vil connosco. As pessoas são livres de escolher um caminho diferente se já não se revêem no percurso que trilharam até ali. No entanto, há necessidade de prejudicar os outros para ter sucesso? Como é que as pessoas se podem sentir satisfeitas por construirem a sua felicidade pisando os outros? Não consigo compreender.

46 anos de idade e continuo a ser ingénua .

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