Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

25
Ago21

A nova silly season

Charneca em flor

Antigamente chamava-se silly season a este período estival, nomeadamente ao mês de Agosto, porque o país parava. Os políticos iam a banhos. As empresas não trabalhavam. Os meios de comunicação não traziam grandes novidades, as reportagens eram sobre praia, calor na praia, pessoas na praia ou num ano mau, incêndios. No entretenimento televisivo apostava-se em repetições ou formatos veranis como "Morangos com Açúcar na praia". 

Embora nos últimos anos, as coisas tenham vindo a mudar e o país já não pára completamente e, de certa maneira, a silly season estende-se por todo o ano. O advento da internet e das redes sociais fazem com que, de vez em quando, haja algumas idiotices a dar que falar.

Uma das últimas foi a "típica bifana" de Gordon Ramsey. Já muito foi dito mas para mim o único erro do chef britânico foi chamar típica à sanduíche que executou  no seu programa. Até achei que tinha muito bom aspecto e não me importava de experimentar.

 

A polémica estalou nas redes sociais e estendeu-se aos meios de comunicação social através de reportagens às tascas para mostrar o que é uma verdadeira bifana. 

Só não vi se alguém explicou o verdadeiro segredo da boa bifana que o surgimento da ASAE veio colocar em perigo. O segredo é nunca lavar a frigideira. Há tascas onde a frigideira não é lavada há várias gerações. Só isso é que dá o verdadeiro e típico sabor à nossa bifana portuguesa .

photo0jpg.jpg

 

09
Mar21

Chique a valer

Charneca em flor

EÇA-DE-QUEIRÓS-Foto-por-Ekonomista.jpg

Todos os dias, se procurarmos bem, encontramos uma polémica a incendiar as redes sociais. No passado domingo, foi o romance de Eça de Queirós, "Os Maias", o mote para mais um fogacho. Bom, na verdade, foi a análise feita pela investigadora Vanusa Vera-Cruz no âmbito de doutoramento que está a tirar numa Universidade nos Estados Unidos. Esta investigadora sugere que se introduza uma nota pedagógica na obra do séc. XIX por causa de algumas passagens que considera racistas. A investigadora identifica "Os Maias" como uma das maiores obras de arte da cultura portuguesa mas aponta, para além das intervenções do narrador, João da Ega como uma personagem racista. 

Dei por esta polémica no Twitter mas, antes de embarcar nesta onda, fui procurar algo mais palpável para perceber de onde vinha esta assunto. Vinha daqui.

Começo já por dizer que Vanusa Vera-Cruz nunca diz, em momento algum, que a obra devia ser proibida mas, apenas, ter uma nota pedagógica sobre este tema.

"Os Maias" fizeram parte do meu percurso escolar como aconteceu com a maioria de vós, presumo. A minha professora optou por dividir a obra por vários temas sobre os quais teríamos que fazer trabalhos de grupo. A minha turma empenhou-se muito nesta tarefa e na apresentação dos trabalhos. Houve vídeos, apresentação de slides* com imagens dos locais mais emblemáticos de Sintra e várias modalidades de apresentação. Guardo óptimas memórias desses dias. Acontece que comecei a ler o livro nessa altura mas o tempo foi escasseando e não o acabei de ler como um romance mas fui-me debruçando nas partes que tinham mais a ver com o meu tema. No entanto, algum tempo depois, voltei à obra e foi um dos melhores livros que li. Pelo que me lembro, este livro é um excelente documento de análise social da época. E, se pensarmos bem, alguns dos defeitos da sociedade do séc. XIX ainda andam por cá. 

Como é óbvio, não podemos olhar para obras do séc. XIX, ou do início do séc. XX, com os olhos do séc. XXI. Mas também não se pode branquear (má escolha de palavras, não é?) o passado nem o pensamento social de outras épocas. Há situações e personagens em romances, filmes ou séries que existem, exactamente, para nos fazer pensar e tirar as nossas próprias conclusões. A literatura serve para nos fazer pensar, para nos tornar mais empáticos e mais esclarecidos. Não podemos chegar a um livro, seja qual fôr a nossa idade, e ter a papinha toda feita, ou seja, ter o livro todo muito bem explicadinho. Perderia toda a graça. O que não quer dizer que, em ambiente escolar, os professores não tenham que fazer um enquadramento histórico e social para que os jovens possam compreender melhor.

E, já agora, faz muita falta, a jovens e adultos, aprenderem a perceber ironia. O mundo seria muito mais divertido.

Agora fiquei com saudades de voltar a ler "Os Maias".

*slides mesmo que eu sou antiga. No meu tempo ainda não havia powerpoint .

26
Fev21

Padrão ao chão

Charneca em flor

padrao-dos-descobrimentos-211500_1920.jpg

Imagem daqui

Já não é a primeira vez que este assunto vem à baila. Até já o mencionei aqui. Voltou a surgir uma polémica que envolve derrubar monumentos. Desta feita, o Padrão dos Descobrimentos. O deputado socialista Ascenso Simões escreveu um artigo de opinião onde designa o monumento que existe em Belém de mamarracho e sugere-se que seja derrubado porque, tal como os florões da Praça do Império, diz ele que:

"não têm qualquer sentido no tempo de hoje por não serem elemento arquitetónico relevante, por não caberem na construção de uma cidade que se quer inovadora e aberta a todas as sociedades e origens"

Alega o deputado que, como o monumento foi construído durante o Estado Novo, prova que o "salazarismo não morreu".

Ora vamos lá a ver. Se desaparecerem todas os monumentos/provas da existência do Estado Novo, da Guerra Colonial, dos Descobrimentos e consequente erros que os portugueses terão cometido ou do papel de Portugal na escravatura, qual será a consequência? Alguém acredita que se a simbologia do colonialismo desaparecer, o racismo desaparecerá por magia? O fascismo e a extrema-direita vão desaparecer se se apagar o Estado Novo da nossa História?

Não será melhor manter toda esta simbologia e contextualizá-la? Não adianta querer apagar a História. Só podemos alterar o futuro. Temos o poder de construir um futuro melhor mas nunca teremos o poder de apagar o passado. E nem acho que se deva fazê-lo. Já repeti isto muitas vezes, é preciso conhecer o passado, perceber aquilo que se poderia ter feito diferente para que os erros da humanidade, seja a deste retângulo ou do resto do mundo  não se voltem a repetir.

E até nem desgosto do Padrão dos Descobrimentos.

E já pensaram o que seria se, depois da Revolução dos Cravos, em vez de se ter mudado o nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril, alguém se tivesse lembrado de a derrubar? Afinal, também é um símbolo do salazarismo.

 

P.S. - Espero que o senhor deputado Ascenso Simões tenha falado de derrubar o Padrão dos Descobrimentos em sentido figurado.

28
Nov19

Guerra aberta

Ser Livre não é cada um fazer o que quer.

Charneca em flor

A recente polémica que envolve o partido Livre e a deputada Joacine Katar Moreira deixa-me muito desiludida. Para começo de conversa, devo dizer que não votei no Livre até porque o meu voto de nada adiantaria, voto num distrito onde não se elegem muitos deputados. No entanto, fiquei contente pela chegada do Livre ao Parlamento. Considero que é um partido que pode contribuir para a construção de um país mais justo, inclusivo e solidário. A deputada eleita também me despertou simpatia como ficou aqui explícito. Achei abjectos os ataques de que ela foi alvo no que diz respeito às suas origens e à sua gaguez. A sua história de vida mostra que ela foi uma mulher lutadora que venceu as circunstâncias da vida em que nasceu e cresceu.

No entanto, as suas atitudes recentes já não abonam muito a seu favor. Independentemente de ser negra, mulher e gaga, isso não lhe dá o direito à atitude de sobranceria que tem tido com o Parlamento, com os jornalistas, com o Partido Livre e com os eleitores que a elegeram. Na Assembleia da República ela representa o partido e não só a si própria. Tem que agir, minimamente, de acordo com os princípios defendidos pelo partido a que ela escolheu aderir. Julgava-a mais inteligente do que isto. Começo a achar que talvez gagueje um bocadinho quando pensa, afinal.

Por outro lado, o Livre também não fica bem na fotografia. Nunca deveriam ter começado com a "guerra de comunicados" do passado fim-de-semana.  Srs, a roupa suja lava-se em casa. Não façam do espaço público uma qualquer lavandaria self-service. Resolvam os vossos problemas nos órgãos próprios do partido e talvez seja melhor reverem a vossa maneira de escolher candidatos. Se calhar, não é boa ideia serem assim tão Livres.

Não tenho dúvidas que a chegada do Livre ao Parlamento se deve muito à cabeça de lista que escolheram para Lisboa e à projecção que ela teve durante a campanha eleitoral. Por outro lado, ela não podia chegar ao Parlamento sem ser integrada nas listas de um partido. Ou seja, Joacine serviu-se do Livre e o Livre serviu-se da Joacine. É muito má ideia estarem, agora, a descartarem-se mutuamente.

E por último, uma palavra à comunicação social, menos é mais. Deixem de dar tanta cobertura aquilo que fazem estes pequenos partidos. Eles são importantes para que o nosso país seja verdadeiramente democrático mas não têm tanto poder no nosso futuro como os partidos com maior representação. Esse sim, decidem a nossa vida. 

16
Jan19

A Ode da polémica

Charneca em flor

Esta semana, a Porto Editora viu-se metida numa nova polémica.

Já em 2017, a editora tinha sido criticada porque lançou 2 livros de actividades diferentes, um para meninos e outro para meninas. Só se prova que viam  mais além. A nova Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, do Brasil, também diz que "menino veste azul e menina veste rosa". Se calhar era consultora da Porto Editora naquela altura.

674229.png

 

Mas adiante. Agora o problema é com um manual de português para o 12o ano. Ao que parece, Fernando Pessoa e os seus heterónimos fazem parte do programa. Os autores do livro escolheram o poema "Ode Triunfal" do heterónimo Álvaro de Campos mas, no livro do aluno, omitiram 3 versos. A situação foi denunciada depois de alguns estudantes terem ouvido a versão áudio. Os versos omitidos, ou censurados, utilizam linguagem considerada obscena e relacionada com pedofilia:

Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas; 

E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! 

Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

A justificação da Porto Editora é que omitiu os versos nos livros dos alunos porque aquelas frases poderiam perturbar e distrair os alunos. Assim o livro do professor tem o poema na íntegra. No entender dos autores e dos editores seria opção do professor abordar, ou não, estes versos consoante a turma.

Hoje falámos sobre isto lá na farmácia e a minha patroa estava muito chocada com os versos relacionados com pedofilia. 

Ó minha gente! Este poema foi escrito há mais de 100 anos. Repito, há mais de 100 anos. Os ditos versos podem-se justificar pelo contexto sócio-cultural da época em que foi escrito. Não podemos olhar para um poema publicado no início do séc. XX com os olhos do séc. XXI. As circunstâncias de então são muito diferentes das actuais  circunstâncias. Aliás, este poema é conhecido exactamente por ser um poema que choca com os cânones quer a nível da linguagem quer a nível do estilo. Uma verdadeira inovação na altura em que foi publicado originalmente, na revista Orpheu em Março de 1915. E, convenhamos, é tão extenso que o mais natural é que os alunos nem dessem por esses versos. 

O programa de português de 12o ano aconselha a escolher 3 poemas do heterónimo Álvaro de Campos mas não especifica quais. Se era para "trucidar" a obra, ao menos escolhiam outro poema. E evitava-se esta polémica.

P. S - Um homem em cuja cabeça viviam tantos outros homens tinha um certo nível de perturbação psiquiátrica, não acham?! Por isso mesmo é que era um génio. Um dos maiores poetas portugueses, muito mais apreciado fora de Portugal do que aqui neste nosso rectângulo. Típico. 

 

 

02
Ago18

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço

Charneca em flor

Quando é que será que os políticos portugueses percebem que o que não é ilegal, pode, ainda assim, ser imoral?! Vem esta reflexão a propósito da mais recente polémica.

Fica aqui o meu conselho para os detentores de cargos públicos:

Quando aceitarem candidatar-se a um determinado cargo, ou quando tomarem posse, ou quando tiverem que defender a posição do vosso partido, espreitem bem para dentro dos armários... pode estar lá escondido um esqueleto.  E ninguém quer isso.

 

P.S - É uma pena que o vereador Ricardo Robles tenha saído da Câmara Municipal de Lisboa. Digam lá se não tornava o executivo bem mais interessante .

ricardo_robles_1.jpg

 

19
Set17

Cuidado com a relva

Charneca em flor

As redes sociais, esses arautos dos bons costumes dos tempos modernos, arranjaram um novo alvo. Por estranho que pareça ainda há pouco tempo, toda a gente andava doida por esta personalidade ter escolhido Portugal para viver. Falo da Madonna. Pois que as redes sociais, os jornais, as televisões transformaram em notícia tudo o que a Madonna postava no Instagram. E uma grande parte dos portugueses inchou de orgulho. Pois que ela andava a cavalo na Comporta, pois que ela almoçava com o Nuno Gomes, pois que ela visitava o Mosteiro dos Jerónimos, pois que ela vai ouvir Fado ou Morna na Mouraria e por aí fora. 

madonna-3.jpg

 

Mas, há sempre um mas, nem tudo são rosas. Primeiro foi a Madonna que se queixou da burocracia em desalfandegar uma encomenda. Agora são as tais das redes sociais que se ofenderam com a publicação em que se vê os filhos a correm pela relva do Palácio de Seteais mesmo ao lado de uma placa que informar que isso não é permitido. Também achei que ela devia dar o exemplo e não escarrapachar os disparates das crianças no Instagram. Como mãe, a sua preocupação deveria ser ensinar a respeitar o património comum. No entanto também não acho que é caso para cruxificar a cantora e dizer, como já li, se era para isto ela que ficasse lá pelos EUA.

São crianças, senhores, são crianças. Quem é que nunca fez qualquer coisa proibida, como pisar a relva, conduzir acima do limite de velocidade, estacionar onde era proibido, tirar fotografias em monumentos onde não é permitida? Quem nunca fez nenhuma destas coisas que atire a primeira pedra. Deixem lá as crianças serem felizes e um bocadinho rebeldes.

Por mim, a Madonna não se ia embora só por causa disto. Podia era fazer um donativo ao Palácio de Seteais para ajudar a cuidar da relva. Ficava-lhe bem.

Mais sobre mim

foto do autor

Links

Vale a pena espreitar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

Blogs de Portugal

Em destaque no SAPO Blogs
pub