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O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

O Voo da Garça

Sonhos, desejos, opiniões, instantes da vida diária...

12
Ago20

Sputnik V

Charneca em flor

Tempos houve em que o poder estava na mão de quem primeiro descobrisse a bomba atómica, de quem construisse a ogiva nuclear de maior alcance, de quem fosse capaz de colocar humanos em órbita, de quem controlasse o acesso ao petróleo e ao gás natural ou de quem armazenasse armas químicas ou biológicas. Agora o poder estará na mão de quem descobrir a vacina contra o Sars-CoV 2. Vladimir Putin e a Rússia ocupam o primeiro lugar.

Resta saber se fizeram batota ou se doparam os "atletas"*. A mim parece-me que estão a cantar vitória cedo demais.

 

*Ou seja, será que queimaram etapas preponderantes no desenvolvimento de uma vacina eficaz e segura?!

31
Jul20

Degradação na saúde

Charneca em flor

Não sei se isto está a acontecer só na cidade onde trabalho ou se é um problema geral. A assistência médica à população está cada vez pior. As histórias que eu ouço dos meus utentes na farmácia são assustadoras. A unidade de saúde familiar da cidade onde trabalho presta um péssimo serviço. Recusam fazer pensos, recusam vacinas a crianças, prometem consultas pelo telefone que depois não se realizam e até já ouvi falar de consultas feitas à porta da unidade. Com certeza que a situação da pandemia é grave e tem que ser controlada mas já não se compreende que os serviços de saúde continuem a não cumprir a sua função. Não há justificação para que se deixe descontrolar as outras patologias. Quantas pessoas já terão morrido ou terão visto a sua situação clínica piorar muito nos últimos 4 meses? Todos anseiam voltar à normalidade possível. E quem trabalha nos serviços de saúde, porque é que não encontra um novo normal para que a vida continue?

 

 

20
Mar20

E estamos em estado de emergência

Charneca em flor

Imagino que muitos se sentirão como eu, a viver numa realidade paralela. Quando vou no carro ou em casa, até me parece que está tudo normal, que é possível planear as próximas férias ou ir almoçar fora. Ou até fazer as compras que me apetecer quando me apetecer. Só que depois percebo que não vivemos dias normais. Dou por mim a lavar as mãos até à exaustão mesmo quando as acabei de lavar e ainda não toquei em mais nada. Ou a fugir das pessoas na rua. Chego ao trabalho e tenho que atender com uma protecção entre mim e o utente. E desato a chorar de alegria e emoção porque consegui comprar mais meia dúzia de embalagens de álcool. Não, nada disto é normal. Às vezes penso que é tudo ridículo porque, afinal, ninguém vê este inimigo e eu nem conheço nenhum doente com Covid19 (felizmente). 

As pessoas que se cruzam comigo não parecem nada doentes. Porque é que tenho que ter medo delas?

Como a maioria de vocês deve saber, eu continuarei a trabalhar por inerência da minha profissão. Têm sido dias esgotantes embora a situação tenha melhorado. 

As pessoas têm sido surpreendentes mas isso nem sempre é positivo. Como falávamos lá na farmácia, ontem, as situações limites fazem sobressair aquilo que o ser humano tem de melhor mas também tudo aquilo que tem de pior. Há exemplos de atitudes louváveis de pessoas que ajudam os vizinhos idosos para que eles não saiam de casa mas o medo também provoca atitudes egoístas e irreflectidas. E têm-se visto muitas atitudes deste tipo. Na farmácia há pessoas que insistem em comprar medicamentos para 2 anos e desinfectante em tal quantidade que chegará até à próxima pandemia. No supermercado compram tudo o que podem incluindo um carregamento de papel higiénico. A sociedade está cada vez mais estranha.

Há quem acredite que disto resultará uma sociedade melhor e mais solidária. O meu pragmatismo duvida.

 

P.S - Muita coragem para os meus colegas farmacêuticos, para todos os outros profissionais de saúde, forças de autoridade, bombeiros e operadores de supermercado que têm que continuar nesta luta diária

 

 

 

 

12
Mar20

Pandemia por Covid-19

E pandemia pela estupidez humana

Charneca em flor

Eu até nem queria voltar ao assunto mas é inevitável. O Covid-19 domina o espaço público. Na farmácia onde trabalho, o incremento no número de utentes não tem explicação. A situação está a ficar caótica e o número de casos ainda é, relativamente, reduzido. Ontem fomos insultadas e ofendidas pela falta de máscaras e pela nossa tentativa de esclarecer a quem aquele artigo se destina. A farmácia esteve cheia durante todo o período de abertura. É quase impossível fazer um atendimento em condições. 

Se já estava complicado, agora com a declaração de Pandemia pela OMS nem quero imaginar como é que vai ser.

As autoridades de saúde recomendam que se evite aglomerações de pessoas mas os indivíduos vão-se enfiar todos na farmácia ou no supermercado onde também já vi o açambarcamento. 

Tal como eu disse no meu post de escrita criativa da semana passada, anda no ar um vírus ainda mais potente que o Covid-19.

Mas depois encontramos exemplos de sensatez como este

 

04
Fev20

Quarentena

Charneca em flor

Nos últimos dias tem sido muito discutida a possibilidade de quarentena obrigatória se a saúde pública estiver em causa. Tudo isso a propósito do repatriamento dos portugueses que estavam na cidade de Wuham, epicentro do surto do novo Coronavírus 2019-nCoV.

A Legislação Portuguesa só permite internamento obrigatório em casos de doença mental. Assim a hipótese de estes portugueses ficarem em isolamento, até passar o período de possível incubação da doença, estaria dependente do consentimento dos próprios. Ou diria eu, do bom senso. Surpreendentemente, estes cidadãos fizeram a opção mais correcta e segura para todos já que aceitaram ficar em isolamento. Afinal, ainda há pessoas com bom senso. 

Ao ficarem em isolamento protegem as outras pessoas, nomeadamente os seus familiares, mas também ficam com acompanhamento médico quase em permanência. 

Se eu estivesse no lugar destas pessoas, faria o mesmo. 

 

 

31
Jan20

O vírus que veio da China

Charneca em flor

Desde os últimos dias de 2019, as notícias têm sido dominadas pelo novo Corona vírus que provoca pneumonias. Tudo indica o vírus teve origem num mercado na cidade de Wuhan uma vez que os primeiros infectados frequentaram aquele local. Depressa se percebeu que o vírus podia ser transmitido pessoa a pessoa. Actualmente, a cidade de Wuhan está em quarentena mas isso só aconteceu vários dias depois do início do surto, ou seja, durante algum tempo continuou a haver movimentações de pessoas para outras regiões da China bem como para outros países. Em apenas 1 mês já há milhares de pessoas infectadas (ontem, dia 30, já chegava quase aos 10000 doentes) e já se ultrapassaram as 200 mortes. A maioria dos casos estão na China e noutros países asiáticos mas vão aparecendo casos em todo o mundo.

A OMS já declarou  "emergência de saúde global". A situação começa a parecer grave. 

Como já é habitual, o alarmismo tomou conta das pessoas a ponto de haver uma corrida às máscaras na farmácia. E também algumas atitudes ignorantes sobre a comunidade chinesa em Portugal. Absolutamente desnecessário. Concordo que a situação é grave mas lá na China e nos países circundantes. Agora, aqui na Europa, claro que surgirão casos mas eu acredito que serão pontuais. 

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É verdade que a propagação da doença tem sido muito rápida espero que não falte muito para se controlar a situação.

Até lá convém seguir as indicações das autoridades de saúde:

  • Evite o contacto próximo com pessoas que apresentem infeções respiratórias;
  • Evite o contacto com animais de quinta ou selvagens;
  • Cozinhe bem a carne e os ovos;
  • Adote as medidas habituais para evitar a transmissão de vírus respiratórios:
  • Lave frequentemente as mãos;
  • Tape o nariz e boca ao espirrar ou tossir (com um lenço descartável – que deve ser deitado no lixo após a utilização – ou com o braço)

Alguns destes cuidados são essenciais para prevenir qualquer tipo de infecção contagiosa.

12
Set19

Portugueses de segunda

Charneca em flor

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Acabei de ver esta reportagem na TVI. Já sabia que as pessoas que vivem no interior do país passam por muitas dificuldades no acesso aos serviços de saúde. Mas uma coisa é saber, outra bem diferente é "conhecer" os casos concretos e ver os rostos de algumas das pessoas que passam por esses problemas. Não sei se sabem mas os medicamentos para tratamento de doenças muito graves, como cancro, HIV, esclerose múltipla entre outras, são, apenas, dispensados a nível hospitalar. Os doentes têm que se deslocar, frequentemente, ao hospital para levantar a medicação. Nos últimos anos, devido às contingências financeiras, não costuma ser possível levantar os medicamentos para muito tempo. Se residirem nos arredores das grandes cidades, poderá não representar uma despesa assim tão grande mas para quem vive a mais de 200 km torna-se complicado e dispendioso ir levantar aquela medicação essencial.

Há 3 anos, foi feito um protocolo entre a ANF, enquanto representante das farmácias, e o governo no sentido de se realizar um ensaio-piloto para avaliar as vantagens de dispensar a medicação hospitalar nas farmácias comunitárias. A primeira terapêutica a ser distribuída desta maneira foi a terapêutica anti-retrovírica.

A farmácia onde trabalho tem feito parte deste ensaio-piloto. Quando eu e a directora técnica conversámos sobre isso, achámos que era importante entrar no ensaio porque acreditámos que os resultados obtidos poderiam ajudar a vida de todas as pessoas do país que precisam da medicação hospitalar. Por isso, ainda me doeu mais ver a realidade destas pessoas que vivem a centenas de kms do hospital. Ao fim de 3 anos, este serviço ainda não foi alargado ao resto do país nem a outras patologias para além do HIV. Sinto-me defraudada. Não foi para que esta medida ficasse no papel que nós embarcámos neste projecto. Se não servir para  melhorar a vida de mais pessoas, o nosso trabalho foi desperdiçado.

03
Mai19

Os meus utentes não deixam de me surpreender

Charneca em flor

As noites de serviço são sempre fonte de inspiração. As pessoas que vão à farmácia a altas horas são, quase sempre, muito sui generis. Esta semana voltou a acontecer uma situação que já é recorrente. Já deviam ser quase 2 h da manhã. Tocam à campainha. Era um casal jovem. O rapaz entra decididamente e a miúda fica timidamente junto à porta entreaberta. 

O diálogo foi  mais ou menos este:

- Era um medicamento para a tosse seca.

- E há quantos dias tem tosse?

Ar atrapalhado e:

- Uns 2 dias.

Eu continuo a indagar se há outros sintomas para perceber se a tosse está no início ou não. Explico porque é que estou a fazer tantas perguntas mas o rapaz não sabe responder até que diz:

- O medicamento é para ela - e aponta para a jovem tímida.

- Ah, sim? Então diga-me lá há quanto tempo tem tosse?

- Há 1 semana.

Perante esta resposta lá decido que medicamento dispensar.

Vou buscar o medicamento e explico como se toma. Diz o rapaz:

- Olhe já agora, é uma caixa de preservativos.

Basicamente, a razão inicial para vir à farmácia de serviço são os preservativos mas, muitas vezes, as pessoas pedem outras coisas para que fique a ideia de que se lembraram dos preservativos por acaso. 

É muito frequente, principalmente entre os jovens, não pedirem logo os preservativos. Umas vezes são pastilhas para a garganta e preservativos. Ou uma caixa de Ben-u-ron e preservativos. 

Jovens, não precisam de ter vergonha. Para um/a farmacêutico/a não tem nada de anormal vender uma caixa de preservativos. Não tem mal nenhum precisarem desse artigo. Até é bom sinal. É sinal de sabem prevenir uma gravidez indesejada ou a transmissão de doenças sexxualmente transmissíveis. É sinal de que são cidadãos responsáveis e não se deve ter vergonha disso. 

14
Nov18

Gripe masculina

Charneca em flor

Começo já por dizer que, para mim, não devia haver publicidade a medicamentos. Já o devo ter repetido várias vezes por aqui. Vem isto a propósito desta publicidade

O laboratório Merck, S.A. achou que era boa ideia utilizar o estereótipo de que os homens, com gripe ou constipação, ficam logo a morrer e as mulheres têm que largar tudo para tratar deles. O spot está tão bem feito que uma utente, professora de profissão, me contou que os alunos achavam que agora havia antigripais exclusivos para homem. Acho muito discutível que uma empresa replique estes "papeis" tradicionais dos homens e das mulheres para vender antigripais. Qual é a vossa opinião? Há uma gripe masculina e uma gripe feminina? Como é na vossa casa?

20
Out17

O adeus de Francisco George

Charneca em flor

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Hoje é o último dia como Director Geral de Saúde de Francisco George. Este médico, especialista em Saúde Pública, tem sido uma figura tão marcante que dá impressão que toda a vida exerceu este cargo mas, afinal, só foi nomeado em 2005. No entanto, em 1992 era Chefe de Serviço de Saúde Pública e Sub-director Geral de Saúde  em 2001. Quer como cidadã quer como profissional de saúde tenho, muitas vezes, prestado atenção às suas declarações ao longo dos anos.

Na altura da Gripe das Aves, os farmacêuticos foram convocados para uma palestra sobre o assunto em que ele era um dos palestrantes (o outro era um especialista em Microbiologia que tinha sido meu professor e pelo qual não tinha grande simpatia). Não fiquei com grande opinião dele. Pelo contrário, durante o surto de Legionella de Vila Franca de Xira, até lhe apreciei a postura. Mas sempre achei que era uma pessoa muito fria. 

A sua postura séria e circunspecta pode ter origem na sua história pessoal. O médico perdeu a esposa e uma das filhas em 2006 no mesmo acidente. Muitas vezes, conhecer alguns factos da vida pessoal de uma figura pessoal pode humanizar a pessoa aos nossos olhos e compreendê-la melhor. Para além disso, o médico trabalhou em muitos projectos de Saúde Pública em Africa. Imagino que viu situações bem mais graves do que aquelas que temos vivido por aqui. Dantes não simpatizava com o senhor, agora acho que vou ter saudades dele.

Boa sorte, Dr. Francisco George, na nova fase da sua vida.

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